A verdadeira compreensão da independência brasileira exige superar a lente materialista e enxergar a ação da Providência, a batalha das ideias e a consagração mariana da nação.
O olhar materialista e a sabedoria transcendental
A sabedoria consiste em buscar em todas as coisas aquilo que há de mais elevado. Hoje, no entanto, o processo revolucionário vulgarizou a vida em sociedade e espalhou uma visão materialista da história pelas universidades. Essa ótica reducionista procura sempre o detalhe mais baixo e sórdido dos acontecimentos humanos. O jurista e pensador Plínio Corrêa de Oliveira ilustrava esse erro com uma metáfora expressiva. Imagine um banquete nobre, com prataria brilhante, louça fina de Vista Alegre e damas distintas. Terminada a ceia, o materialista escolhe fixar sua atenção apenas nos intestinos e no processo digestivo dos convidados. Essa função biológica existe, mas ela não é o elemento principal. O que realmente importou foi a elevação das almas por meio daquele convívio distinto e harmonioso.
Como observou o escritor inglês G. K. Chesterton, quem rejeita a metafísica perde a própria liberdade intelectual. Os materialistas vivem acorrentados ao chão, porque negam as realidades invisíveis. O católico, por outro lado, dispõe de uma visão transcendente. Ele enxerga a matéria e a natureza, mas é capaz de voos mais altos de compreensão. A história humana move-se, em última instância, pela correspondência livre do homem à graça de Deus. Quando uma civilização responde a esse dom celeste, surgem maravilhas duradouras como as catedrais medievais da Europa. Quando os homens rejeitam a graça divina, a sociedade degrada-se em discórdia, pecado e ruína.
A ruptura do direito e a perda da ordem sagrada
Para entender o período da Independência do Brasil, é preciso examinar a crise das ideias jurídicas na passagem do século dezoito para o dezenove. A doutrina tradicional da Igreja sempre defendeu o jusnaturalismo transcendente. Essa concepção, explicada por São Paulo aos Romanos e consolidada por São Tomás de Aquino, ensina que a lei natural está gravada no coração humano. Ela reflete a lei eterna da criação. Toda lei humana positiva só possui verdadeira autoridade se estiver em harmonia com essa ordem superior. Caso contrarie a lei divina, ela não é lei legítima, mas pura corrupção legal.
Essa base espiritual começou a ruir com pensadores protestantes como Hugo Grotius. Ele afirmou que o direito natural existiria mesmo que Deus não existisse, comparando as leis morais à regra matemática de que dois mais dois são quatro. Essa separação entre a ordem jurídica e o Criador preparou o caminho para o positivismo moderno. Em Portugal, a reforma pombalina da Universidade de Coimbra adotou compêndios racionalistas protestantes. Foi nesse ambiente contaminado que se formou a elite intelectual luso-brasileira que liderou a separação em 1822. A perda da sacralidade institucional e dos costumes enfraqueceu o tecido social, abrindo espaço para um laicismo desvinculado dos bens eternos.
A alma dividida de Dom Pedro I
A Independência brasileira não decorreu de um impulso popular espontâneo, mas da ação direta de minorias dirigentes. Dom João VI preparou o terreno ao elevar o Brasil a Reino Unido em 1815, reconhecendo a inviabilidade de governar uma terra de dimensões continentais à distância. Contudo, coube a seu filho, Dom Pedro I, romper os laços políticos com as Cortes de Lisboa. O príncipe apresentava uma psicologia complexa e repleta de contradições. Por um lado, carregava no sangue a herança guerreira da dinastia fundadora de Portugal, com a coragem física de cavaleiros medievais como Dom Afonso Henriques.
Por outro lado, o monarca havia sido profundamente influenciado pelo liberalismo da época. Ele personificava duas visões de mundo inconciliáveis: a mentalidade cristã do Antigo Regime e o secularismo racionalista. Apesar dessa cisão interna, o príncipe realizou um gesto de indiscutível valor transcendente em sua viagem entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Ao passar pela vila de Aparecida, Dom Pedro prostrou-se diante da imagem milagrosa e consagrou o futuro Império a Nossa Senhora. Aquele ato piedoso marcou o nascimento espiritual do Brasil independente, ancorando a soberania da nova pátria na proteção da Mãe de Deus.
Dona Leopoldina e o discernimento contrarrevolucionário
Outra figura decisiva para a fundação do Estado brasileiro foi a Arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo. Educada na corte mais católica e tradicional da Europa, a princesa austríaca combateu interiormente os ideais liberais e revolucionários desde menina. Aos doze anos de idade, ela escrevia cartas ao pai felicitando as tropas austríacas pela resistência contra as forças de Napoleão Bonaparte. Ao aceitar o matrimônio com Dom Pedro em 1817, ela encarou a união não com sentimentalismo romântico, mas como uma sublime missão designada pela Divina Providência.
Instalada no Rio de Janeiro, Dona Leopoldina percebeu logo as inclinações perigosas de seu marido. Em correspondência ao pai, ela lamentava como o fantasma feio do espírito liberal havia dominado a mente do príncipe herdeiro. Frente a esse perigo, a imperatriz agiu segundo a melhor cartilha do apostolado católico. Ela buscou valorizar os dotes generosos do esposo, estimulando seu talento para a composição musical sacra, enquanto procurava conter suas más inclinações morais e ideológicas. Dotada de firmeza católica e fidelidade exemplar aos seus votos, foi ela quem presidiu a histórica sessão do Conselho de Estado que determinou a separação definitiva de Portugal.
A vocação histórica e o futuro do Brasil
Os povos possuem chamados particulares no desígnio de Deus. Eles não constituem uma massa amorfa e intercambiável, como propõem certas ideologias contemporâneas. Uma nação só alcança a verdadeira harmonia quando orienta seus esforços coletivos para o bem mais alto: a glória do Criador e a salvação das almas. Em uma síntese memorável, Dom Luís de Orleans e Bragança destacou as virtudes psicológicas herdadas pelos brasileiros. Ele apontou o senso prático e a bravura dos portugueses, a sensibilidade artística dos africanos e a viva intuição dos povos indígenas como esteios da nossa alma nacional.
Dotado de vastas riquezas materiais e de um povo naturalmente generoso, o Brasil está chamado a ser muito mais do que uma potência econômica ou militar. Nossa principal missão perante o mundo é moral e civilizatória. Essa alta vocação só florescerá quando o país reencontrar suas raízes católicas e restabelecer a autoridade da ordem natural. O motor dessa restauração histórica reside na piedade popular filial, expressa nas romarias de Belém do Pará e de Aparecida. É sob o manto protetor da Virgem Santíssima, Rainha e Padroeira proclamada da nação, que o Brasil cumprirá seu verdadeiro destino providencial.